terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Tarde de outono

No fim daquela tarde de outono resolvemos dar uma volta pela praia. O céu tinha um tom especial e se podia ver um mar calmo sob as nuvens mansas que corriam pelo céu.
Paramos em uma pedra para namorar ao som das ondas que batiam leves e entre um beijo e outro eu vi um rapaz sentado mais ao longe. Chamou minha atenção o jeito como estava parado na pedra. Parecia que ia pular. Mas algo o detinha. Olhei mais ao longe e um barquinho vinha com sua vela em direção à costa e percebi de imediato que o jovem olhava para ele.


-- Amor, está com o teu binóculo na mochila?


Minha pergunta foi instantânea, nem mesmo percebi que a fiz. Ele olhou-me com a astúcia de um gato e pôs a mão na bolsa sem nem olhar para ela tirando o objeto que pedi. Sorrindo peguei-o e coloquei diante dos olhos ajustando as lentes o mais rápida que pude.

Sorri entredentes. No barco estava uma moça e ela acenava para ele. Ela tinha o corpo queimado do sol. Parecia que fazia tempo que estava no mar. Quando me dou conta, ele levanta-se da pedra, faz um movimento elegante com o corpo e se atira para o mar. Meu coração para por um segundo, mas quando ele sobe à superfície e começa a nadar em direção ao barco e ela, num movimento contrário salta no mar para encontrar-se com ele no caminho, retiro o binóculo do rosto e olho para os olhos do homem ao meu lado.


-- Satisfeita, Mang!

Diz ele com a malícia no tom certo.

-- Não...

Beijo-o com amor. Suspiro entrelaço meus dedos aos dele e deito minha cabeça em seu ombro para voltar a observar no orizonte o sol se pondo. Agora sim, estava satisfeita.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Velho amigo


Naquele dia eu estava sentada debaixo da árvore no parque. Lia compenetradamente. Era como se cada parte de mim estivesse dentro das páginas daquele livro. Não escutava nem os barulhos ao redor.

Como para me despertar uma bola bate em minha perna. Assusto-me e seguro a bola olhando em volta. Havia muitas pessoas no parque, ficava difícil dizer à quem pertencia.

Percebo um menino vindo em minha direção. Cara de "desculpas" armada. Loiro, olhos azuis, tinha o rosto redondo como o das crianças... De repente algo me chama a atenção. É como se meus olhos me traíssem e eu voltasse no tempo.

Nós, com apenas 9 anos, corríamos pelo parque, crianças em pleno começo de verão, todas correndo e gritando pelo parque que havia sido florido pela primavera. Deixei algo que estava guardado há tempos em uma das gavetas do meu passado... Devaneio... Quando percebo o rapazinho está com as mãos esticadas para mim:

-- Moça, desculpe, foi um chute meio forte. Posso ter minha bola de volta?

Sorrio e quando estico a bola para ele o reconhecimento surge em minha mente no mesmo instante. Raul. Esse era o nome do menino que costumava correr comigo pelo parque.

Quando fui fazer a pergunta que meu cérebro formulou veio um homem procurando pelo menino. No momento em que me vê uma ruga também se forma em seu cenho e as palavras dele foram mais rápidas que as minhas:

-- Mang?!

Abro os braços mostrando a mim mesma num gesto bem comum, faço um movimento de cintura curvando levemente o corpo pra frente e depois de um belo sorriso:

-- Como está, Raul?!

Sou acolhida num abraço e uma enxurrada de palavras me arrasta para onde está o resto da família. Meu livro perde a leitora. Passamos o resto da tarde conversando e quando dou por mim já é hora de ir. Despeço-me e corro para o estacionamento, ele já devia estar esperando. Avisto o carro vermelho de longe e seu motorista pacientemente à espera.

Entro no carro, beijo-o e sorrio. Quando ele liga o carro eu começo.

-- Temos um jantar com amigos essa semana...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Era uma vez em Portugal I


Nossa história começa, senhores, como muitas por esse reino. Em uma taverna qualquer do Reino de Portugal. Dois jovens. Com dois passados tão intrigantes e misteriosos, mas que em tudo se pareciam.
Ele morava num canto, tinha seu campo e era um simples cidadão português procurando não aparecer muito.
Ela morava em outro canto, a dias de viagem dele. E vinha com a comitiva da família de passagem pela cidade dele.
Numa pequena noite portuguesa, estava ele sentado na tasca apenas fazendo sua refeição diária quando ela passa pela porta. Linda. Com seus cabelos sendo mexidos com o vento e com seus olhos a vasculhar a Tasca por um canto livre para ela.
Não vinha só. Vinha também a comitiva. Uma viagem longa e cansativa. Mas do cansaço seus passos a levaram a uma cadeira perto dele e ali trocaram seu primeiro olhar. Ela fez sinal ao taverneiro que lhe serviu o melhor da casa, e o jovem a seu lado, lhe pagou uma cerveja para que o corpo relaxasse da jornada.
A comitiva animada, ria-se de tudo e de todos. O jovem tímido e desconsertado cada vez mais sentia seu olhar atraído para a mesa da jovem... Mais até, para o olhar dela, profundo e hipnotizantemente belo...
Ao conseguir dizer algo em meio a algazarra, suas palavras foram de elogios para ela. Não se conteve. Mesmo mantendo o ritmo educado de suas palavras sempre doces, insistia em fazer elogios para aquela jovem desconhecida.
Trocaram palavras amigas. Ela, educada e tímida. Ele, educado e tímido. Mas na conversa que tinham descobriram-se coisas em comum. Passados. Amigos. Irmãos... Coisas e pessoas que nem mesmo os mais espertos espiões seriam capazes de decifrar.
Trágico, senhores, é no entanto o destino. Ao mesmo tempo em que juntava os amantes – ah sim, isso eles serão mais tarde – também os levava para caminhos opostos. Ela partiria ainda àquela noite e os dois não se veriam mais. Ao acompanhar a jovem até sua estalagem, o jovem lhe confessa o que vai ao coração e descobre subitamente que não sente só a paixão. Conversam e trocam juras. Beijos apaixonados. Loucos os dois? Talvez. Mas se prometem um ao outro eternamente naquele momento. Os dois estão prestes a viver uma grande história. Mas ainda não sabem.
E nem nós, caros leitores, pois em partes essa historia será contada. Hoje fico por aqui, pois a pena me pesa e o caminho para casa é longo.
(São 7 partes, postarei-as aqui. Escrevi para um rpg - reinos da renascença - é a primeira de outras que vieram. 2010.)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Considerações sobre o nada

Limpezas sempre nos trazem coisas interessantes. Hoje encontrei um texto. Estava num pacote com textos dos meus alunos, a data é de 2003. Vamos a ele:


A cosia mais incrível que existe é o "nada". Pensem em tudo o que o nada
engloba e é isso que é incrível, como pode o nada englobar tantas coisas se é
nada?
Vejam, nada, no dicionário, quer dizer "nenhuma coisa", a "não existencia",
mas, se pode ser definido no dicionário, já é alguma coisa.
Outro exemplo, muitas vezes as pessoas perguntam para outras: "O que você
está fazendo?" A resposta mais comum pra essa pergunta é: "Nada!" Mas será que
de fato alguém é capaz de estar fazenod nada mesmo? Afinal, nosso corpo não para
nunca, mesmo que estejamos em estado de repouso, nossas mentes estão em pleno
funcionamento...
Por falar em "estado de repouso", vamos olhar o nada pelo lado físico, o
nada é o vazio, mas será que temos o vazio completo? Quando entramos em uma sala
e ela não tem móveis nenhum, ela não está vazia de fato, ela está cheia de ar.
Então pode-se argumentar: "bem, mas em um tubo de vácuo não existe ar". Pois,
não existe ar, mas existe então o vácuo, que é alguma coisa, já que é
definível...
Aí está, o nada é a coisa mais incrível que eu conheço, pois, por mais que
pense, não consigo chegar a uma conclusão sobre o nada... Talvez ele seja
apenas algo que inventamos para ter no que acreditar...


Curitiba, set de 2003.



Ui, aí está, não é que seja a perfeição, mas é meu.


domingo, 19 de setembro de 2010

Mar Sereno

Sentindo a calma das ondas
Eu costumo pensar sobre a vida:
Relembro de coisas do passado,
Encaro as coisas do presente...
Naturalmente,
Independente de querer,
Deixo os pensamentos à deriva...
Acalmo meu coração, e
Deixo que o oceano
Enxágüe-me de serenidade.



segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Africa!

Três dias. Já exausta na sala cheia e quente. Depois de dois dias intensos estou finalmente sentada sem nada pra fazer que nao seja ouvir.
O tema gira em torno do Negro e da sua história. Aliás, história fascinante e cheia de coisas que foram "ocultas" por uma educação eurocentrista que nunca fez questão nenhuma de lembrar dos africanos...
Nossa visão "pré-estabelecida" é preconceituosa ao extremos, mas muitas vezes não nos percebemos disso. Não nos damos conta, por exemplo, de que eles não foram escravizados aliatoriamente ou porque o índio (que aqui já era escravo a muito tempo) era "preguiçoso" (outro pensamento preconceituoso); não, os africanos sempre foram um povo muito à frente de seu tempo. Possuiam tecnologias avançadas de agricultura, higiene, medicina, etc... Técnicas que foram analisadas na hora de escravizar um grupo ou outro que possuia determinada técnica que era necessária em dado lugar...
Que bom é ter história, poder dizer descendo de italianos, japoneses... Mas e o negro? Descende de que região? De que tribo? De que país? Dizer que são africanos não será pouco? Então não seria o memso que dizer sou "americano" ou "europeu", "asiático"? Isso não é pouco???
A fadiga me leva ao devaneio. Perco algumas informações. Volto somente quando tudo termina e meus pés cansados me levam ao carro... Entro. Ligo o carro. A música... Escosto no banco e suspiro de olhos fechados antes de me concentrar e deixar que meu cérebro esteja focado no caminho pra casa...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A foto



Havia dias que eu procurava um livro que a Angela me pediu. Não encontrava em canto algum. De repente, mexendo na gaveta dele pra pegar um documento, encontro o livro.

Ponho uma ruga no meio da testa:

-- Como tinha vindo parar alí? Ele nem gosta desse tipo de leitura...

Tiro o livro da gaveta e ao folhear deixo cair uma foto. Quando olho para ela lembro do dia. Eu estava sentada no café tomando capuccino e conversando com minha amiga da foto quando ele chegou com a máquina na mão.

Apresentei os dois e ele todo feliz, parecendo um menino, mostrava o "brinquedo" novo...

-- Olha, amor! Vê esse zoom!! O tamanho desse flash...

MInha amiga e eu trocávamos olhares e ríamos dele e do seu ânimo com a máquina... Sorri com a lembrança. Fechei o livro com a foto onde estava e devolvi para a gaveta. Ângela teria que esperar. Peguei o documento que fui procurar e sai apagando a luz do escritório...

sábado, 28 de agosto de 2010

No shopping

-- Mang, quando foi que você descobriu que amava ele?
Quase nao percebi a pergunta no meio do agito no shopping. Precisei de alguns segundos para perceber sobre o que falávamos. Parei de repente, olhei para ela com uma cara intrigada: Afinal, que pergunta era aquela? Segurei em seu braço...
-- Vamos sentar no café. Isso terá que ser explicado...
Subimos pela escada rolante, sentamos e fizemos os pedidos de sempre...
-- Então?! Anda, desembucha...
Sem jeito ela me olhou toda vermelha:
-- Bem... Eu... E o Henrique... Estamos... Ãh... Saindo...
-- Que??!! "Estamos saindo"??!! Desde quando??
-- Tem 3 meses...
-- Três meses!!!!!! - disse quase gritando.
-- É... A gente ia contar. Só... Foi acontecendo...
-- E estão apaixonados?!!
-- Então...
-- Três meses!!! - refleti atônita - Se você está me perguntando isso é porque já era. Estão apaixonados.
Ela sorri. Eu rio cumplice de volta.
-- Ah que bom, estou mesmo feliz com isso!!!!!!
-- ...
-- Há!! Terminando esse lanche descemos. Vi um sapato lindo na vitrine...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Fim de semana


Estou sentada à mesa. As mãos nervosas esfregam-se uma na outra em cima da mesa. Estralo os dedos - um de cada vez - com a ajuda do polegar. As mãos suam...

Receber aquele recado me deixou ansiosa. Há muito não a via. Devia fazer, sei lá, uns 20 anos... Tanto tempo... Viajo nas lembranças de um tempo em que as preocupações giravam sobre o que levaríamos para o próximo acampamento...

O garçon vem e pergunta se desejo algo e peço uma água:

-- Com gás e sem gelo. Limão no copo, por favor.

O relógio anda devagar e a expectativa é enorme. Quando a água chega me distraio com a rodela de limão dentro do copo. Cutuco com o palito de sorvete que veio junto - sem o sorvete, o que é uma pena...

Penso comigo mesma como era bom antigamente quando o que tínhamos era um sofisticado palito de agrílico com uma bolinha em uma das pontas e na outra um adorno. Tempos esse que só via o palito no copo da minha avó e seu inseparável campari vermelho...

Desse lugar de lembranças sou tirada por uma mão no meu ombro:

-- Mang?!

Virei e mesmo tendo passado tanto tempo sorrimos uma para a outra . Nos abraçamos. Sentamos para jantar e conversar. Parecia que havíamos nos visto há apenas uma semana. Uma longa semana de 20 anos...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A viagem


Entrei naquele avião rumo ao destino, rumo à um sonho. Não sabia o que pensar, não sabia o que me esperava. Muitas foram as desculpas. A amiga que me acolheu, os amigos que fiz e que seriam realidade a partir daqueles dias.
Seis horas... Era o que me separava do destino. Muitas coisas passaram pela minha cabeça. Já tinha feito outras viagens, outras pessoas se tornavam realidade... O que esperar dessa nova cidade? Do novo passeio...
Mas a verdade é que meu coração foi em busca da sua metade. Talvez quando fui não soubesse o quanto essa viagem era importante. É possível que não esperasse tanto. Certamente minha cabeça sabia o que fazer, mas meu coração estava meio perdido.
Seis horas... Pensei em pegar um livro, mas minha mente viajava e ansiava pelas coisas que viveria... Nessas alturas não tinha Veríssimo que me ajudasse... Conexão em São Paulo. Trocar de avião encheu minha cabeça por alguns minutos. Liguei pra casa:
-- Oi mãe.
-- ...
-- Sim, tudo bem...
-- ...
-- Sim... Beijos
Conversa rápida... Apenas pra dizer que estava bem... Novo embarque. Mais duas horas e quarenta minutos e estaria desembarcando... Quem estaria lá. Como seria a recepção... Será que ele estaria me esperando....
Quando o avião pousa meu coração salta... Desembarco e vou atrás das malas... Calmamente caminho para o salão de desembarque e quando saio pela porta lá está ele. Lindo, doce, gentilmente me esperando. Aproximo-me dele... Um abraço... Um beijo... Uma frase:
-- Chega só de letras.
-- ...



Amigos, amores, corações separados pela internet. Que cada um deles encontre esse momento, pois é especial de verdade. Conhecer amigos assim me fez feliz. Sei de amores que começaram assim e que são felizes... Então... É pra vocês...

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Viagem pra casa

Esse final de semana pegamos o carro e saímos pela estradas. Tínhamos um rumo, mas não tínhamos pressa. O sol brilhava em cada canto da estrada, poucas eram as nuvens e se podia ver a linha do horizonte em qualquer direção que se olhasse.
Logo depois de uma curva nos deparamos com um imenso campo todo verde. Um verde que abusava de tão lindo. Foi como mágica. Nós dois tivemos a mesma reação. Ele parou o carro e eu peguei a máquina fotográfica... Procurei o melhor ângulo e bati a foto. Quando olhei pra ele vi o rosto do menino que conheci. As lembrança escorriam pela face de homem feito. Sorri para ele. Ele sorriu para mim. Sabia que eu estava dentro da cabeça dele, no mesmo pensamento.
Aquela nossa viagem havia sido planejada com cuidado, chegaríamos de surpresa. Avisamos a irmã dele para que ela desse um jeito de juntar o povo num almoço, mas tudo seria surpresa. Ele a muito havia saído de casa e os pais dele andavam a telefonar mais do que o freqüente.
Quando ele decidiu sair de casa para estudar foi uma confusão. O pai precisava do “braço” dele e a mãe nada podia fazer quanto a isso. Ele veio decidido a não voltar. E quando voltou, anos depois, foi para uma visita rápida e me apresentar. Dessa vez ele voltava para ficar mais uns dias. Ficaríamos hospedados na casa da irmã “cúmplice” do plano. Ela realmente estava contente com nossa ida e ele estava ansioso para ver os pais mais uma vez...
O milharal só aumentou a expectativa. Chamei-o para o carro de volta e olhei o mapa:
-- Ok, não vamos parar para o lanche, assim chegamos mais rápido...
-- Mang, não tínhamos pressa...
-- Sim. Não “tínhamos”... Vamos com cuidado, mas vamos logo...
Ele sorriu para mim. Beijou meus lábios e ligou o carro.
-- Vamos.
A palavra de hoje é de uma estreante: Carina Reis, uma amiga que conheci em um "outro tempo"...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Passeio pelo parque


De mãos dadas passeamos pelo parque. Estamos os dois tão felizes. Coisas novas acontecendo em nossas vidas, amigos casando, tendo filhos... Tudo nos parece perfeito.

Levamos o Hércules pra passear e ele está correndo um pouco à nossa frente... Pula, vai e volta, late para o ar e para nós... Está alegre pelos momentos de liberdade...

Sentamos em um banco perto do lago. O verde se espalha ao redor. O sol da tarde de domingo invade o parque como o amigo que há muito não se vê. Todos sorriem e abrem os braços para recebê-lo.

Em meio ao abraço dele, percebo que Hércules encontrou algo. Um animal em uma moita talvez. Olho como ele se posiciona diante da moita, como cheira, late, rosna. Cutuco ele pra que olhe em direção ao cachorro. Ele sorri. Faz menção de levantar. Eu o seguro mais um pouco. Gosto de observar as estratégias do Hércules enquanto caça...

-- Pena não termos trazido a máquina...

Ele apenas sorri e me olha. Eu não resisto àquele olhar. Sorrio de volta e lhe dou o prêmio solicitado. Um beijo.

Depois do beijo ele cha que já e tempo de tirarmos o cão da sua caça e depois de um grande assobio ele diz firme:

-- HÉRCULES!

O cão atende ao chamado na hora, corre até nós, ele poe a guia nele mais uma vez. Levantamos e tomamos rumo de casa...

terça-feira, 6 de julho de 2010

Vazio


Estou sentada naquela pedra. Tudo ao redor se agita. Mas não estou alí. Me sinto uma estátua no meio da praça e à minha volta um sertão começa a existir.

É como se fosse o vacuo. O silêncio é o que escuto. Meus pensamentos também não tem vazão. A estagnação da alma também é total. O corpo está prestes a entrar no caos. O único desejo é de ficar alí. Parada. Imóvel.

Algo se forma em minha mente e provoca um pequeno movimento de cabeça...

-- Que vergonha!

O mexer do corpo, por mínimo que tenha sido, parece ter trazido a alma de volta. A reação provoca outra e vejo o andar de um conhecido. Ele vem com a mão erguida em minha direção. Toca meu ombro. Implora pela minha alma...

Eu pisco, como se estivesse acordando de um sonho - ou de um pesadelo talvez. Olho nos olhos dele... Os meus enchem de lágrimas.

-- Tudo bem, amor...

Me vejo envolvida no abraço dele. O ombro preciso para o choro. Rolam as lágrimas. Ele acalanta...

Depois de um tempo alí ele se mexe. Abraça-me pelos ombros:

-- Vamos para casa... Isso vai passar...

Sigo com ele. Os pés habituados a seguir os dele. Em casa estarei segura...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

E se tudo vive a modificar-se...


... o futebol mudou.

Você já ouviu aquela frase que diz que “ futebol não é coisa para mulher” ou “as mulheres só sabem quando é gol por que vêem a comemoração”, ou ainda aquela – que considero a pior de todas – “mulher deve esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque”?
Mulheres que faziam isso, hoje quase não existem mais. O mito da mulher Amélia caiu talvez até antes do muro de Berlin. Hoje as mulheres provam no dia-a-dia que gostam, entendem e conhecem de futebol.
Usamos as camisas dos nossos times do coração como uma bandeira da nova fase do comportamento feminino.
E os homens?
Bem, eles têm duas opções: Ou compreendem e aceitam ver os jogos ao lado de suas esposas, namoradas, filhas e amigas ou correm o risco de serem trocados pelo futebol no domingo a tarde...
By Iasmine Eidelwein

sábado, 22 de maio de 2010

Nos trilhos da memória


Conversando no jantar, decidimos que nesse fim de semana tomaríamos o trem para o litoral.

Cedo estamos na estação e olhar as pessoas prontas para a viagem nos traz uma sensação de saudade.

Olho para ele alí, de pé olhando as informações turísticas do passeio na parede e minha mente viaja... Não consigo lembrar de como era a estação naquele único passeio de trem que recordo ter feito. Com uma pontinha de tristeza, percebo que lembro muito pouco... Apenas alguns "flashes"...

Lembro que meus pais estavam no trem. Aliás, mesmo não lembrando de todos, sei que a familia toda estava no trem. Descíamos para o litoral, talvez alguma festa na casa de alguém por lá e fomos de trem não sei porque razão.

Existem duas coisas nessa viagem que lembro com carinho:

Quando passamos pelo túnel, gritamos! Era assim que devia ser segundo alguém... O túnel veio aproximando-se cada vez maior, engolindo o trilho onde estávamos e quando fomos nós os engolidos, gritamos... Depois?! Risos...

O outro momento foram os aviõezinhos de papel. Meu tio, quando estávamos perto da mais alta ponte fez pequeninos aviões de papel. Quando chegamos à ponte, atiramos os aviões pela janela... Ganhava o avião que chegasse antes ao solo... Claro que jamais se soube quem ganhou. O trem já ia longe quando os aviões "aterrissaram"...

-- Mang?!

O toque dele em meu ombro e a voz suave me trouxeram de volta...

-- Vamos?!

Levantei sorridente e, no caminho para a plataforma, peguei dois papeletes de propaganda...

sábado, 1 de maio de 2010

Lágrimas de Outono

Carmen estava sentada à janela de sua casa. Olhava a paisagem. As folhas do outono dançavam ao vento. As árvores já quase sem roupa, pareciam chorar pelo frio que viria. na janela, os olhos da menina tinham a mesma tristeza...

Em sua mente divagavam lembranças de dias passados... Ela sentia o outono enchendo seu coração. A saudade invadia suas lágrimas...

Antes de partir ele havia lhe dito que a amava e que iam ter mitos filhos... Mas a notícia de que pertiría não chegou por ele. Se fora sem nada dizer... E agora, olhando pela janela, chora, e por entre as lágrimas o vê na memória...

Está parado ao pé da árvore acenando para ela. Sua mão vai até o vidro com a esperança de tocá-lo... Com o movimento, o bilhete cai de sua mão:

Sinto muito. Parto para a guerra. Te amo.






Essa é do pessoal do 3H.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Jantar à dois

Estava na cozinha preparado a janta. A casa estava em silêncio. Bethoven encontrava-se aos meus pés. Eu tinha na mãos uma taça com vinho. Punha no forno o salmão. O molho agridoce cheirava pela casa...

Aproveito que o arroz que serviria de entrada estava pronto e vou arrumar a mesa. Escolho uma toalha vermelha. Ponho dois pratos, os guardanapos brancos, os talheres de prata da minha avó. Duas taças y os copos para a água.

Com a mesa pronta volto à cozinha para ver se tudo está bem. Abro a geladeira para verificar se o sorvete ainda se encontra lá e também separo os "brounies" para a sobremesa...

De repente, Bethoven que estava sempre aos meus pés corre para a porta. Eu sorrio. Sei que ele chegou. Escuto quando ele entra. fala com o cachorro e ao passar pelo radio escolhe seu CD favorito e põe pra tocar... Fecho os olhos e sinto os acordes das músicas. Cada uma dela me lembrando ele...

Ele cantarola na sala e vem caminhando até a cozinha. Eu tiro o avental e bebo o último gole do vinho que tenho na taça. Estou olhando o forno quando ele chega:

-- Oi, Mang.

Levanto-me. Olho para ele com um sorriso. Ele tem nas mãos uma garrafa de vinho branco e um buquet de flores. Meu sorriso só aumenta com a cena...

-- Eu trouxe seu vinho favorito...

Vou até ele e com um beijo agradeço...


Texto coletivo com o 2ºG do CEP. Aí está meninos.

domingo, 25 de abril de 2010

O grande tigre de bengala

Ainda no tempo em que os bichos falavam havia na floresta um misterio. Todas as noites os animais escutavam um ressoar vindo com vento que passeava por entre as árvores. Era um sussurro de dor e tristeza emachucava a alma da floresta.
Mas a vida na floresta continuava seguindo e durante o dia todos estavam alegres e despreocupados. Mas bastava o anoitecer aproximar-se que tudo começava a mudar, as conversas diminuirem ou passarem à sussurros; o medo se instaurava.
Num dia - de dia - um grupo de animais muito revoltados com a situação foi até a presença do Leão - o Rei Leão -, e o lobo, representante do grupo, se adiantou pra falar:
-- Senhor Rei, sabemos de sua nobreza, de sua coragem, de sua força. Por conta disso nos reunimo e viemos aqui implorar. Não aguentamos mais. O medo toma conta de nós. As noites são mal dormidas, é preciso que isso mude...
Enquanto ele falava, a trupe que veio com ele fazia menções em cada momento...
-- ÉÉÉÉÉ!!!
-- ISSO MESMO!!!
Uma barulheira e uma confusão que foi irritando o grande e garboso rei até que, no meio de tudo, ele ruge:
-- GRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAUUUU!!!!
O eco do rugido se espalhou por toda a sala do trono e o silêncio veio em seguida. Impávido em seu trono ele lembrava a todos o porque era ele o rei. Com o olhar real se acalmando, ele falou com a voz sabia dos reis:
-- Caros animais. Súditos. Irmãos. Vocês tem razão em sua reclamação... Também minha família está assustada. Vamos empreender nessa mesma noite uma patrulha, descobriremos o que acontece.
Satisfeitos, os animais voltaram para casa na certeza de que tinham um bom rei.
Naquela noite, quando tudo ficou escuro e o vento começou a correr soturnamente entre as árvores, encontrou um grupo de bravos leões vigiando. E quando o silêncio reinou, lá vieram os ressoares. O lamento de uma fera.
Os leões, mesmo sentindo o arrepio do medo subindo pela espinha, mantiveram a formação. Passo a passo o grupo foi seguindo, o cheiro do medo se espalhava pela floresta e os bravos leões sabiam disso...
No entanto, se há bons caçadores na floresta, esses são os leões. Assim, mesmo com as dificuldades, foram seguindo silenciosos em direção ao ruidoso intruso.
Quando estavam bem perto, a apenas alguns passos da grande clareira da Lua, se prepararam para atacar. Avançaram e a visão que tiveram os fez parar...
Alí, bem no meio da lareira, estava, em pé em sua 4 patas e reluzido à luz intensa do luar, um grande tigre branco. Era simplesmente o maior tigre de bengala que já haviam visto. Lindo. Suas listras caramelo contrastavam com a brancura de sua pele que brilhava ao luar. E os olhos claros, pareciam duas estrelas em órbita na resplandecência da noite. O tigre parecia chorar, lamentava-se olhando para o céu como se houvesse algo que ele precisasse que o céu escutasse...
Ao perceber os leões na clareira o tigre parou o lamento num átimo e seus olhos azuis olharam para cada um dos leões e eles puderam ver a imensa tristeza nos olhos do tigre.
O tigre suspirou. Sentou-se. E com a voz mais mansa que já havia sido escutada, diz aos leões:
-- Desculpem! Acabo de perceber que meus lamentos causam um problema... Mas não sei como parar...
O líder do grupo de caça dá um passo à frente e cautelosamente diz pergunta ao belo animal:
-- Mas como e porque um espécime tão belo e raro como você lamenta-se dessa forma? Não sei se percebe, mas a floresta toda sofre. Você causa terror em todos, porque o vento leva e aumenta os ruidos por entre as árvores. Há um povo inteiro aterrorizado...
Ao escutar isso o tigre solta um longo suspiro. Sua tristeza mais uma vez se espalha pela clareira e os leões sentem-se incomodados. O tigre decide que é hora de contar o porque de sua tristeza:
-- Há muito tempo, quando eu ainda corria pela floresta com os outros animais, me apaixonei por uma ursa. Obviamente que esse amor era impossível! Um tigre e uma ursa! Dois seres tão diferentes... No entanto descobri que ela também de mim gostava e começamos a nos ver escondidos das nossas familias, nosso amigos, de todos...
Um dia estávamos namorando quando fomos descobertos. Um enorme urso marron nos encontrou e furioso começou uma briga. Ela, querendo que aquilo parasse, entrou entre nós dois bem no momento em que ele desferia um golpe. Acertou-a em cheio e a matou. Com a ira que se seguiu eu matei o urso.
Quando veio o sol, o sangue se espalhava pela floresta, meu pelo branco todo vermelho pela briga, me denunciava.
Fui condenado a viver sozinho e longe de todos e nessa clarera descobrir minha ursa - olha para o céu... Mas também, ao seu lado, está o grande urso para lembrar-me do mal que causei... Por isso é que me lamento...
Os leões estavam estarrecidos. Então as histórias sobre ursa maior e ursa menos eram verdadeiras, existia memso o grande tigre de bengala que havia matado os ursos...
-- Senhor tigre - disse o leão - sua história é conhecida na floresta toda, é uma lenda... Assim, não podemos nem sequer ousar a atacar. Peço, como líder desse grupo, que pare com os lamentos e deixe de assustar os bichos. - E continuou - O rei me imbuiu de autoridade para o que for preciso, então eu chamo-o a conviver conosco de novo, já sofreu demais e já pagou sua dívida.
O tigre, que há muito vivia só e triste, sentiu um calor dentro do peito, e depois de anos a chorar pelos cantos, sorriu. Olhou bem nos olhos do leão e, num movimento de cabeça, agradeceu. Deu ás costas ao grupo e desapareceu na floresta...
O grupo de caça jamais disse nada sobre aquela noite. Voltaram todos em silêncio e com a certeza de que haviam vivido um momento mágico. E nunca mais se escutou o ressoar de lamento do tigre...
Esse texto vai, com um abraço meu para os pequenos Rafael e Marta, com carinho, pro outro lado do Atlântico. E para a Paula, minha querida amiga, que tantas palavras bonitas tem pra mim sempre...

domingo, 11 de abril de 2010

Tá namorando.... Tá namorando....

-- ...

-- ...

-- Ângela, me conta, e o carinha da academia?

-- Passa o açúcar. Bem, o carinha da acadêmia é muito simpático, tem 30 anos e é advogado. Trabalha concursado no Tribunal de Contas da União. Gosta de vinhos. Viajou pro Chile numa escursão pelas vinículas chilenas. Manteiga por favor. Vive sozinho em um apartemento perto de casa. Adora o rock nacional, mas é bem eclético e tem uns cd's de música de cinema maravilhosos... Nada 3 vezes por semana e 2 vezes vai à academia. Nos finais de semana vai aos parques, cada semana um e adooora tirar fotografias...

-- Caramba!

-- ... (cora)

-- Eu não queria a ficha completa, apenas queria saber se você ainda continuava saindo com ele...

-- Parece...

-- Parece!!!! Você sabe a ficha completa dele e acabo de entender porque depois de anos de insucessos da minha parte em te convencer a aprender a nadar você subitamente desenvolveu um desejo de aprender...

-- Mang!

-- Sério, Ângela, acho que está na hora de apresentá-lo à turma...

-- (risos)

-- (risos)

-- Que delícia esse pãozinho...

-- É. Descobri uma padaria nova a caminho do trabalho... Ângela, porque ainda não decidiu se estão enfim namorando?

-- Não sei. Acho que me falta segurança...

-- Amiga - segura a mão dela - aqui entre nós, você conhece a vida do cara como a palma da tua mão, isso significa que tem passado bastante tempo com ele (e também explica o teu sumiço repentino), mais segurança que isso!!! Só compromisso.

-- ...

-- Olha essa geléia.

-- Amora! Hum...

-- Que?!

-- Ele adora amoras...

-- ...

Olham uma para a outra...

-- ha ha ha ha ha

-- ha ha ha ha ha

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O sabor do preço da páscoa



Hoje, estaba a pensar nos tempos em que vivia com minha mãe e com meu pai em uma casa com um jardim bem grande.

Todos os anos na páscoa, minha mãe coloria uns ovinhos de galinha e nos punha uns amendoins torrados e papai nos comprava uns chocolates e, em um pacote para cada um, os escondia pelo jardim e nós os procurávamos durante a manhã de Páscoa... Depois como estávamos reunidos havia o grande almoço de páscoa.

Hoje em dia, quando chega a época de Páscoa, vejo a muitos pais loucos ao supermercado procurando os "maravilhosos ovos" ofertados. Um mais lindo que o outro. A variedade é imensa. Alguns possuem recheio, outros são trufados. Há aqueles com "cacau extra-especial", ou com "leite das vacas gentís do alto das montanhas suiças"... Sabores tão variados quanto os preços...

E esses - os preços - são assunto à parte. Pode ser dizer que existe uma variedade absurda entre um e outro, mas, mais absurdo ainda é que os menores preços já são altos.

Olhando essa loucura toda, onde o chocolate torna-se parte de uma tradição cada vez mais consumista e moderna, tenho saudade di tempo em que os doces serviam para agradar o coração das criança e fazer rir aos adultos, e em que à hora do almoço, dávamos a mão e agradecíamos pela renovação da esperança que é a páscoa...


Texto produzido em língua espanhola com a turma do 3º G do Colégio Estadual do Paraná. Obrigada fofuxos.

terça-feira, 30 de março de 2010

O Incidente

Caminhava com Hércules - nosso cão - pelo parque. Era bem cedo. Havia perdido o sono, e como Hércules estava tão impaciente quanto eu, saímos para dar um passeio.

O parque ainda estava vazio. Era possível sentir o ar gelado da manhã de inverno nas maças do rosto. Nosso respirar formava pequenas linhas de vapor saindo da boca e das narinas. O gramado ainda branco da geada estralava sob meus pés quebrando o silêncio do parque.

Passamos por um banco onde havia um homem sentado. Não pude ver-lhe o rosto porque usava um chapéu de abas largas e estava com a cabeça baixa como se dormisse... Assim que o deixamos para trás senti o movimento dele levantando... Segurei firma a coleira de Hércules e apertei o passo, atrás escutava o ruído dos passos dele em meu encalce:

-- Maldita hora que resolvi sair de casa tão cedo!!! - Pensei com raiva de mim mesma.

O medo corria no meu sangue e Hércules já sentia e se agitava na coleira. A cada passo o suor brotava do meu rosto por conta do caminhar rápido e da grande quantidade de roupa que usava... Hércules já estava começando a cansar e eu também...

O homem nos perseguia com ímpeto. Num átimo, lembrei do posto policial que existia dentro do parque. Quem sabe nao haveria um guarda pront para me ajudar, ou ao menos me abrigar do me perseguidor...

Respirei fundo mais uma vez, apertei bem a coleira e acelerei iniciando uma pequena corrida em direção ao posto... Ao avistá-lo percebi com alívio que havia alguém por lá, pois as luzes ainda estavam acesas. Sabia que meu perseguidor ainda estava atrás de mim, apesar da minha corrida...

Cheguei ao posto e entrei. A porta estava aberta e o guarda sentado se assustou com meu estado levantando imediatamente...

-- Senhora, tudo bem? Sente-se, por favor!

Respirando com dificuldade tento explicar o que acontece quando o homem chega na porta do posto tão esbaforido quanto eu. Olha bem pra mim. E do mesmo modo que eu, tenta dizer alguma coisa...

Quando olho pra sua mão sinto uma vermelhidão enorme subindo pelo meu rosto. Levanto de onde estou ainda respirando com dificuldade e vou até o homem parado na porta ao lado do policial. Estendo minha mão e pego meu cachecol preferido das maos dele...

-- A senhora.... Deixou.... Cair....

Com o rosto ainda rubro, sem saber mais se era vergonha ou do vento que havia tomado...

-- Ãh, me desculpe... Obrigada pelo cachecol, ele é mesmo importante...

O guarda que nada entendia, sentou em sua mesa e apontou em sua planilha:

"Incidente resolvido"

domingo, 28 de março de 2010

Ob Ligada


Ele chega e mais uma vez me encontra sentada na poltrona da biblioteca. Tenho uma taça de vinho numa mão e um livro na outra, no entanto estou com o olhar perdido em uma das páginas do livro, tão distraída que não o vejo chegar...
-- Mang?!
-- Ah, oi - sorrio para ele na tentativa de disfarçar.
-- O que foi?
-- Ãh?!
-- Vamos, Mang, você está assim desde ontem...
Ele senta na poltrona ao lado, pega a outra taça de vinho que sempre está alí e serve o vinho. Me olha com o olhar mais confidente de todos. É impossível não falar com ele.
-- Ando meio pensativa nesses dias, não é?! - digo ainda na esperança de fugir da conversa...
-- Distante seria a palavra certa, amor...
Parei para refletir por um instante. Era verdade, não conseguiría negar. Então respirei fundo e disse:
-- Sabe, estive pensando sobre a palavra obrigada. Tantas vezes dita mas poucas com sinceridade...
Deixo a tensão surgir no meu rosto. Ele já sabe do que eu falo:
-- Mang, compreender que "ob ligado" é estar ligado por uma obrigação moral com o outro é para pessoas especiais. Para pessoas que levam a sério ensinamento simples como "tu te tornas responsável por aquilo que cativas". Nem todos alcançam isso...
Olho pra ele no meio de um suspiro:
-- Eu sei, amor, mas é tão difícil... Muitas são as vezes em que me entrego tanto para não receber de volta...
-- Amor, a dívida que você forma nesses laços é uma coisa do seu caráter. E é isso que te torna essa pessoa especial...
Mais um suspiro sai de mim. Olho para ele. Vejo o amor dentro dos olhos dele. Ergo a taça. Tomo um gole. Pego em sua mão mostrando meu agradecimento eterno por tê-lo a meu lado e pela maneira como diz as coisas certas na hora certa... Ele sente que é o momento certo...
-- E então, amor, o que está lendo hoje?
Sorrio e dedico os próximos minutos a falar do livro...

sexta-feira, 26 de março de 2010

A desculpa


Estou no meio do shopping. Procuro por ele como combinamos. Me dirijo até a cafeteria onde sempre fazemos o lanche...

A garçonete me vê chegando e já aponta para nossa mesa. Ela fica alí no cantinho ao lado da TV grande que tem na parede.

Olho no relógio, ele está ligeiramente atrasado... Caroline já me trouxe o café e avisou que já está mandando preparar o café com o aroma delicioso de baunilha misturado...

Eu me distraí com a TV, passava um filme engraçadinho, tomava o café a goles saborosos enquanto meus olhos se perdiam no colorido da película...

Num repente o cheiro do café ganha outro sabor. O perfume irresistível dele. Fecho os olhos e respiro fundo. Ele sabe o efeito que causa em mim. Sei que está sorrindo quando toca meu ombro...

-- Oi, Mang...

-- Oi!! Você está atrasado.

-- Foi por uma boa causa...

Ele senta à mesa e me estica uma sacolinha com o sorriso no rosto. Quando vejo de onde é o embrulho minha melhor cara de braba se perde vencida pela desculpa mais injusta desse mundo. Ele sabe o quanto amo livros...

Caroline ao ver de longe que já estava tudo bem, traz a água dele e avisa:

-- Já sirvo o resto. Desejam algo diferente hoje?

A mão dele sobre a minha. Eu atenta ao livro que acabo de ganhar - como queria esse. Ele olha para ela e faz um pequeno movimento de cabeça dizendo não. Ela sorri, pede licença e sai...

-- Isso não é justo.

-- Desculpe, Mang, me atrasei no trabalho...

Sorrio e a conversa passa pra outros ramos enquanto rímos...

terça-feira, 23 de março de 2010

Sonhos a dois


-- Um tostão pelos teus pensamentos.

-- ...

-- Mang? - olha preocupado.

-- Ãh, desculpe... É que estava aqui pensando em como estamos bem hoje... E se é possível que estejamos assim quando formos velhinhos...

-- ...

Olho para ele intrigada com o silêncio. Dificilemnte ele nao tem algo pra dizer. A comunicação entre nós é sempre tão perfeita que poucos são os momentos assim...

Meu coração sente um frio e gaguejo algo em direção a ele...

-- Eu... É...

-- Mang, ontem eu tive um sonho. Eu estava passando pela praia e vi um casal de velhinhos. Quando olhei pra ela, amor, ela tinha os teus olhos. Esses olhos mágicos que só você tem igual... E a senhorinha sorriu pra mim... E quando ela sorriu...

-- O que F?!

-- Bem, eu reconheci você imediatamente. Só você sorri daquele jeito, amor...

Olhei pra ele e sorri, foi impossível não fazê-lo...

-- Esse, Mang, esse!

-- ...

-- Então olhei para o velhinho preocupado, afinal, se eu estava alí quem seria aquele que estava com você...

-- ????

-- Era eu sim. Eu. Alí, velhinho a teu lado. Caminhando pela praia...

Quando ele me olha vê uma lágrima caindo...

-- O que foi, Mang?

-- Era exatamente o que eu estava imaginando. Se um dia nós dois íamos estar caminhando de mãos dadas na praia, como agora, bem velhinhos...

-- Mang, eu caminharei com você até no mar de nuvens do céu depois que morrermos...

Dei um sorriso pra ele. Ele me sorriu de volta. Um beijo. Mãos dadas e o caminho a seguir...

quinta-feira, 18 de março de 2010

O balanço


Estava uma princesinha a conversar com sua mãe. A rainha sempre ocupada nunca deixava de ter um tempinho pra sua pipoka, afinal, era o amor de sua vida:

-- Mamãe, porque o céu é azul?

-- Hum... Porque Deus é menino, Pipoka.

-- Ãh?

-- Sim, Pipoka, se Deus fosse menina o céu seria cor de rosa...

A princesinha olhou bem pra mamãe pensando no que ela dizia, e pareceu-lhe fazer bastante sentido. A Rainha sorria satisfeita, pois sua Pipoka estava feliz ao lado dela e ela ao lado da Pipoka.

As duas viviam em um palácio bem lindo. Tinha um quarto pra princesinha todo cheio dos brinquedos que ela mais gostava e com muitos livros de historinhas pra mamãe ler - ela o fazia todas as noites antes dela dormir. Um quarto pra rainha, com imensas janelas para o lago onde ela passava horas lembrando das coisas boas que já havia vivido... A sala de visitas, a cozinha, banheiros (claro - toda casa tem banheiro)...

Na frente do palácio havia um jardim cheio de flores, uma mais bela que outra. Um banquinho de jardim embaixo de uma árvore onde era comum ver as duas: A princesinha a correr atrás das borboletas gargalhando gostoso e a rainha sentada a observá-la de soslaio enquanto lia...

E alí no jardim está o brinquedo que a Pipoka mais gosta: Um belo baloiço (balanço para os leigos) onde ela costumava "voar" para os mundos diferentes e encantados... A princesinha adorava aquilo. A mamãe vinha por trás e a embalava:

-- Segura firme, Pipoka.

Ela fechava os olhos e segurava firme no baloiço que ia pra frente com o impulso dado pela Rainha... Sentia-se muito feliz, podia estar em qualquer lugar...

-- Mamãe?

-- Oi...

-- Hoje está muito frio?

-- Hum... Acho que não... Vês o sol pela janela?!

-- Sim, mamãe...

-- Então acho que não está muito frio.

Uma pequena pausa...

-- Mamãe?

-- Diz, Pipoka...

-- Podemos nos balançar?

A Rainha não resiste àquela carinha de pidona da Pipoka. Põe seus afazeres um pouco de lado. Levanta-se. Pega na mão da princesinha e sai com ela para o jardim.

No primeiro balançar ela diz:

-- Segura firme, Pipoka.

A princesinha fecha os olhos, se agarra no baloiço e sente o toque suave das mãos da rainha em suas costas empurrando-a para o vento... Nesse instante o que se houve em cada canto do castelo são as gargalhadas da princesinha e da rainha, as duas juntas e felizes a brincar no jardim... (para sempre se precisarem de um fim :p )


Esse é dedicado à Maria e à Teresa lá do outro lado do oceano...

terça-feira, 16 de março de 2010

Novidades


-- Oi!
-- Bah! Quanto tempo... Que saudades!
-- Pois... Novidades?
-- Ah siiim, quase te esqueci de contar.
-- hauhaua conta, conta...

(link)

-- Vê isso ai...
-- Já leio, tá lento aqui...
-- Nao é de ler, é de ver...
-- É percebi depois que cliquei...
-- Percebi...
-- .....
-- .....
-- QUE CHIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIQUEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE Estou emocionadissima!!!! Toda produzida, chiquéééérrima na televisão!!! Quanto foi isso????

-- A filmagem a 3 segundas atrás e passou na quarta passada...

-- Dá pra ver na tua cara que tu ta muito feliz lá...

-- Nossa, eu estava mesmo com saudade... Me fez chorar agora...

..................................................................................................................................................

-- Hey, diz uma palavra aí?

-- Pizza

-- :)

-- :p

-- ..........

-- ..........


(total falta de criatividade)


terça-feira, 9 de março de 2010

Surpresa


Ontem cheguei em casa e ela estava num silêncio tão grande que quase me partiu o peito.
Fui até a cozinha e quando cheguei lá vi algo estranho. Tinha certeza que a louça do café da manhã estava na pia quando saíra...
Frazo o cenho e mais estarnho ainda é que olho para o fogão e vejo panelas com coisas entro... Verifico e vejo que é minha comida preferida... Meu coração já estava prestes a saltar pela boca. Volto pra sala e acendo a luz da sala de jantar... A mesa está posta pra dois e um candelabro - ainda apagado - está ao centro dela...
Nessa altura sei o que está acontecendo.
Deixo a bolsa no sofá da sala e subo as escadas, entro no quarto bem cautelosa porque ainda nada escuto... Sinto um cheiro maravilhoso que vem do quarto. Ele certamente tomou banho. Olho pra nossa cama e lá está ele.
Suas costas expostas enquanto ele de bruços dorme suave... Chego de mansinho e o cutuco... Ele desperta ao mais leve toque... Sorri para mim... Quase não acredito que ele está alí... Ele se vira na cama e me olha com amor e serenidade...
-- Feliz dia das mulheres, Mang...
Sorrio para ele agradecida pelo esforço.
-- Espero que nao esteja cansada, preparei um jantar pra você, e quem sabe de sobremesa não podemos "comer bolachinha"...
Beijo-o com a saudade de um mês inteiro.

terça-feira, 2 de março de 2010

Recado


Tiro a bolsa do ombro, coloco em cima da mesa e vejo. Meus olhos enchem de água e tenho que me controlar para não deixar a emoção tomar conta de mim...
Meu coração e meu pensamento voltam anos no tempo, quando eu ainda era uma menina loirinha e pequenininha, com os cabelinhos cacheados balançando ao vento. Eu e minha avó estávamos sentadas numa praça esperando meu avô. Por algum motivo ele não estava conosco, não lembro a razão nem pelo vô nao estar conosco, nem porque estávamos alí, mas é possível que a gente estivesse saindo do teatro já que a praça fica perto do mesmo.
Alí, as duas, como muitas vezes, conversando... Num momento qualquer dessa espera, uma joaninha pousou em meu braço e talvez eu tenha tido medo, mais uma vez minha memória falha, afinal, isso deve ter sido quando eu tinha entre 4 e 6 anos, mas lembro, como se fosse nesse momento, minha avó dizendo:
-- Bobagem! Ela não vai te morder. Quando uma joaninha pousa na gente é sinal de boa sorte!
Ainda hoje, quando fecho os olhos eu penso nisso e praticamente escuto minha avó dizendo isso...
Olhei pra joaninha na alça da mochila, apanhei-a na mão, fui em direção à janela e ela voou em mim... Parecia não querer me largar... A sala cheia, parecia notar a emoção... calmamente fechei os olhos por instantes minúsculos, respirei fundo, consegui levar a joaninha até janela, fiz uma oração agradecendo à minha avózinha pela força e olhei pra todos:
-- Bom dia!
-- Bom dia...
E tudo voltou ao normal...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Perfume

Lembro quando começamos a namorar. Eu queria lembrar do cheiro dele a todo custo, principalmente quando não estava perto dele.
Um dia peguei a Ângela e a obriguei a ir a uma perfumaria comigo. Fiz a vendedora tirar todos os vidros de perfumes masculinos das prateleiras e, com paciência, fui experimentando um por um...
-- Delicioso... Mas doce demais...
-- ...
-- huum... Não, acho que é mais cítrico...
-- ...
A assim eu ia... A vendedora sem entender descia um depois do outro na tentativa de acertar... Ângela estava louca comigo, e pegava o café o tempo todo para limpar o meu olfato na esperança de que aquilo não demorasse tanto...
Quando eu estava quase desistindo a jovem me trouxe um perfume e disse:
-- Olha, esse é um que pouquíssimos buscam, ele é difícil de sair e combina somente com alguns homens...
Peguei a amostra e senti. Ao respirar imediatamente um arrepio subiu pela minha nuca. Fechei os olhos. Senti o abraço dele em mim... A essência que vinha dele saindo por todos os poros...
-- É esse! - disse com um sorriso faceiro no rosto - Vou levar um vidro, por favor! Pode embrulhar pra presente...
As duas, Ângela e a funcionária da loja, pareciam mais do que tudo, aliviadas.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Artur


Estava refletindo no carro enquanto dirigia para casa.
Acabara de sair de uma reunião imensamente chata e improdutiva. o chefe faloyu, falou, falou... Gabou-se de como ele era bom, de como havia feito a empresa crescer e lá bem no final, abriu espaço para uma ou outra idéia, mas tenho certeza de que ele não escutou nenhuma delas... Seus olhos não olhavam o falante e seguramente ele pensava em como "ele" era bom...
Eu sei que se aquele encontro estivesse sendo feito entre os colegas renderia muito mais. As idéias fluiriam e nós ganharíamos mais uns pontos na companhia... A quem "ele" pensa enganar? Somos nós os responsáveis pelo crescimento...
Nós, os amigos, todas as vezes em que nos sentamos àquela mesa redonda somos como os Cavaleiros do Rei Artur, cúmplices, eficientes, honrados...
Decidimos as coisas rapidamente e pomos em prática o plano. O tempo que resta nós usamos para a troca efetiva da amizade e companheirismo...
Suspiro quando paro no sinaleiro e penso alto:
-- Puxa, aidéia da Solange era realmente boa...
Abre o sinal e eu continuo o caminho pra casa.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Zoo


Máquina fotográfica na mão. Ele sentado ao pé de uma árvore olhando a ilha no meio do lago... Lá estão os primatas.
Ele se diverte. Adora o zoológico... O sorriso que tem com a máquina na mão é enorme... Os saguís parecem saber o que ele quer e exibem-se para a foto...
Assim foi também com a lontra - ela nadava em seu tanque fazendo malabarismos tão graciosos que só podia estar se exibindo - e também com os pássaros...
Caminhávamos pelo zoo com sorrisos no rosto. Ele adora o zoo. Eu adoro quando ele sorri!
Quando chegamos na girafa foi minha vez de fotografar... Animal elegante e bonito... Fascinante, eu diria...
Ao olhar para ele depois de tirar muitas fotos batidas, percebo seu olhar fixo em mim e o sorriso do homem apaixonado...
Não resisto. Caminho até ele e dou-lhe um beijo. De mãos dadas nos dirigimos para a ala dos felinos...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Cadeira vazia

Naquela cidadezinha hoje impera um arzinho fúnebre. Falta algo.
O vento parou de soprar. O sol sumiu entre a tristeza do povo. Existe no ar um cheiro de sal das lágrimas...

Todos os dias ele estava lá. O povo pasava e ele dava com a mão. As crianças riam e eles lhes ralhava ou ria para eles ou ainda deles...

Ele era o médico:

-- Seu Antonio, hoje tô com uma dorzinha aqui no ombro...

-- Faz uma compressa com essa planta. - e tirava uma planta do armário...

Ele era o professor:

-- Manoel, quantas vezes vou ter que ensinar como por o madeirame?

O ancião:

-- A benção seu Antonio!

A cidade praticamente girava em torno dele.

Hoje o vento parou. O sol sumiu. Existe o cheiro de sal...

A cadeira dele está vazia...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Combinado


TRIIIIM, TRIIIIM, TRIIIM

-- Alo?!

-- Oi.

-- Oooooiii!! Tudo certo?

-- Sim! Estou ligando pra chamar pra vir aqui em casa à noite para jantar.

-- Ah! Perfeito! Só eu?

-- Não, chamei todas.

-- Legal! Levo o que?

-- Hum... Já que perguntou... Traz a sobremesa?

-- Siiiim. O que vai fazer de comida?

-- Risoto de Fungi...

-- Tá pensarei em algo bem delicioso e que combine...

-- A Luiza trará o vinho pro jantar e a Dani para a sobremesa... Liga pra ela.

-- Ok. Às oito?

-- Isso. Achei um bom horário...

-- Combinado.

-- Até a noite.

-- Até.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A partida

Juntos frente a frente... Nossa concentração no tabuleiro. A tensão é sentida... Ele faz um movimento e me olha. Sorri...
Intrigada pelo seu sorriso olho para o tabuleiro minuciosamente. Sei que ele está aprontando. Conheço aquele olhar... Em silêncio me concentro. Peça por peça imagino os movimentos... Não encontro o que é. Começo de novo...
-- Qual a intensão dele?! - penso - Sei que há algo...
Ele vê meu semblante. Sabe o que estou procurando algo. Posso sentir o prazer vindo dele. Ele sorri mais uma vez e recosta na cadeira. Toma a taça de vinho na mão e bebe em goles saborosos... Eu não acho o que ele pretende. Frustrada movo o bispo:
-- Xeque! - Olho pra ele meio ressabiada e sabendo que há algo.
Num movimento de cavalo ele come meu bispo, salva o rei e diz vitorioso:
-- Xeque mate.
Olho indecisa! Como eu não vi?!
-- Mang?! Mais vinho?
A tensão se desfaz pois ele me segura a garrafa da bebida na mão com aquele olhar mágico e triunfante de sempre.
Pego meu copo. Estico o braço para ele. Tenho a taça cheia. Dou um gole. Olho para o tabuleiro do xadrez e digo:
-- Mais uma? Não perderei essa.
Ele me olha e arruma as peças no tabuleiro. Brancas pra ele...
-- Eu começo agora.
-- ...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Encantos

Uma boa amizade. Um cachorrinho nascendo. Um pássaro cantando pela manhã na janela. Um dia de sol. A chuva ao fim das tardes de calor.
O mar. Um barquinho no lago. Um ventilador nos dias quentes (ou ar condicionado)... Uma criança sorrindo. Uma mãe cantando uma cantiga de ninar.
O escuro para o sono. O aconchego de um abraço. O sabor de uma voz. A felicidade do reencontro.
A certeza de um amor. A alegria de um sonho realizado. O desejo de fazer.
Uma rede. Um livro. O som suave da água correndo ao fundo. O estrondo da cachoeira que nos deixa sem fala.
O peixe subindo a corrente. O rio encontrando o mar. O avião saindo do chão. Um navio chegando ao porto.
Dormir ao som da chuva. Acordar ao som de um bom dia. Sorrir depois de um "obrigado". Agradecer com um "obrigado".
Acertar no presente. Comer com a mesa cheia (de gente e de comida). A alegria do Natal. O desejo de um ano novo. A esperança da renovação.
Um recomeço. O fim perfeito de um projeto. O sorriso de acerto. O levantar depois de um erro.
O olhar apaixonado. O beijo molhado. O cheiro da terra molhada. Leite tirado na hora. Pão com manteiga quentinho. Queijo fresco do sítio.
O sonho perfeito. O sorriso de uma criança. A harmonia do coral. O pássaro fazendo ninho. O prazer de escrever.
Um olhar. O olhar. O COMPARTILHAR.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Harmonia


Mais uma vez falo sobre sons. Estou numa sala cheia deles. Só que me sinto estranha. Os sons estão aí, junto comigo e eu me sinto perdida no meio deles...

Tantas palmas e sílabas melódicas e compassos e eu sem conseguir juntá-los em harmonia. Uma coisa de cada vez! - penso - Não consigo fazer tudo ao mesmo tempo. Como é possível!!!

Nesse momento queria ser uma gaivota. Porque?! Porque voa, pesca, "pia" e faz tudo a mesmo tempo! É a armonia que procuro. Voando, as asas abertas batem dentro de um ritmo perfeito... Uma vez ou outra pende pra um lado ou para o outro para acertar melodia do voo!

Numa nota vê o peixe lá embaixo e desce a escala até lá para encontrar na água o recomeço da frase melódica...

Ela, a gaivota, é livre na música.... Ela vibra, sente, entra no ritmo...

Eu?! Eu só faço uma coisa ou outra. A menos que escreva. Porque nisso sim, faço tudo ao mesmo tempo.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Momento

Ah! A sensação de paz.... São 4 horas da tarde. Estou deitada na rede. Um livro por companheiro...
O silêncio de uma casa do campo é quebrado apenas pelos pássaros e outros sons vindos do bosque.
Eles?! Foram pescar. Ela? Dorme no quarto. Eu? Bem, eu estou aqui, na rede com meu livro...
Leio uma frase. Um momento de reflexão da personagem que me faz refletir sobre minha própria vida. Fecho os olhos, sinto uma felicidade se instalando em mim.
Lembro das coisas que faço. Dos amigos. Dele. Quando meu pensamento chega nele o sorriso perfeito se faz em meu rosto...
No meio disso escuto um barulho. Sobressalto mas antes de abrir os olhos sinto o cheiro dele...
-- Cheguei...
O sorriso volta e eu não abro os olhos, desejo prolongar essa sensação pelo maior tempo possível... Segundos que parecem eternidade passam e eu respondo abrindo os olhos...
-- Oi!
E um beijo me trás de volta a minha realidade.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Pra Lembrá da federá



Coisas boas sempre passam,
Assim como as ruins.
Talvez a diferença esteja,
No que a gente deseja.

As ruins a gente quer esquecer,
As boas queremos lembrar.
Então, eternizando a Federá,
Fiz isso pra você guardá!

A Lari passou na Federal! Por isso o poeminha que improvisei pra ela!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A Lenda do Lago Mágico


Há muitos muitos anos, no local onde hoje se ergue a cidade de Leiria, viveu uma princesa, conhecida de todos pela sua bondade e sensibilidade. Toda a sua vida a princesa conhecera a felicidade. Tivera uma infância e adolescência alegres, sem que nada nunca lhe faltasse. Desde a família até ao seu povo todos a amavam e lhe queriam bem.
Quando completou dezoito anos, perante a ideia de casar, a princesa disse aos seus pais que casaria sim, mas só quando encontrasse aquele com quem sentisse a união e harmonia que desejava. Os pais garantiram-lhe que só a casariam com quem ela quisesse.
Por essas alturas lutava-se uma guerra a sul, e muitos princípes vinham de longe, com os seus exércitos a caminho de aventuras. Toda essa agitação, colorido e entusiasmo fascinavam a princesa. Foi numa dessas vezes, em que a princesa observava os preparativos militares, que notou um jovem príncipe muito elegante que logo começou a conversar com ela.
Não foi preciso muito para que os dois sentissem necessidade de passar juntos todo o tempo que podiam, conversando e passeando. Caminhavam pelos arredores do palácio, contando tudo sobre as suas vidas, e a princesa mostrava todos os locais que eram importantes para si. Em especial o seu vale preferido, onde sempre corria nos momentos de tristeza, quando queria estar mais perto de si própria. Foi lá que deram o primeiro beijo e que pela primeira vez declararam o seu amor um pelo outro.
Mas cedo chegou o dia em que o exército partiu para a guerra. A despedida dos dois apaixonados foi o momento mais triste até aí vivido pela princesa. Sentiu como se parte de si fosse também com o seu príncipe. Como se ficasse vazia. Como se tivesse já envelhecido sem ele.
A partir desse momento os dias da princesa foram vividos sem alegria. A ansiedade por notícias do seu amado consumia-a. Todos notavam a diferença. Sem o sorriso e o constante brilho da princesa toda a terra parecia mais pobre. Mas após algumas semanas, a fatídica notícia chegou. Homens feridos regressados do combate contaram como o exército do príncipe tinha sido derrotado, e ele se contava entre os muitos mortos.
Foi mais do que a princesa conseguia suportar. Correu para casa, fechou-se no seu quarto, e durante dias ninguém conseguiu falar com ela, nem os pais, nem os irmãos, nem as criadas em quem mais confiava. Deixou-se ficar, impávida, como que definhando por dentro.
Um dia, para surpresa de todos, a princesa levantou-se do seu leito, atravessou o palácio, e saiu. Ninguém a tentou parar, pois todos sabiam da sua dor, e sabiam que algo de importante estava para acontecer. Em reverência, olharam-na e seguiram-na à distância.
Viram a princesa correr. Correu até mais não poder, e só parou quando chegou ao seu lugar preferido, o bonito vale que lhe servia de conselheiro. Aí ajoelhou-se e, pela primeira vez desde que recebera a notícia, chorou. Chorou toda a tristeza que lhe ia na alma. Chorou toda a dor calada durante os dias anteriores. Chorou toda a beleza perdida para sempre dentro de si. Chorou o amor que não viria mais a sentir. Chorou durante todo o dia e toda a noite. Chorou até adormecer exausta.
Nessa noite a princesa sonhou que o seu amado viera confortá-la. Que estava do outro lado do vale à sua espera. Acordou ainda antes do romper da aurora, convicta de que o seu sonho era real. Levantou-se e correu em frente, para atravessar o vale e encontrar aquele cujo regresso tanto desejava.
Ao correr sentiu os pés molhados, talvez pela humidade da manhã. Logo de seguida as pernas, os joelhos, o tronco. A princesa percebeu que onde antes estivera um vale havia agora um lago. Um lago nascido das suas lágrimas.
A princesa não deixou que isso a travasse, e nadou até à outra margem. Aí, exactamente onde sabia que o encontraria, viu o seu príncipe que jazia ferido no chão. Não estava morto, como por engano a tinham feito acreditar. Estava cansado, um pouco ferido, mas bem. O príncipe, ouvindo um ruído, acordou para ver à sua frente a mulher que amava, ainda molhada do lago que acabara de atravessar. Abraçaram-se ambos e prometeram nunca mais se deixar.
Os dois casaram, e reza a lenda que foram muito felizes, vivendo uma longa vida de paz e amor lado a lado. Servido de exemplo de harmonia e bondade para todo o povo.
Quanto ao lago, continua ali, bonito, imponente, junto à cidade de Leiria. Os leirienses dizem-no mágico. É um símbolo de desejos realizados e de amores indestrutíveis. Sabem que ao banhar-se nas suas águas encontram uma magia inexplicável. Algo que lhes muda as vidas e que só poderia ter vindo de todo o amor e bondade da antiga princesa.
Ainda hoje os leirienses procuram o lago em momentos especiais. Às vezes para desabafar as suas mágoas, ou mesmo para que as suas lágrimas se juntem às da princesa. Outras vezes para pedirem que a pessoa amada regresse. Diz-se que ao banhar-se nas águas do lago uma pessoa encontra mais facilmente o amor da sua vida. E diz-se ainda que uma jura sincera de amor feita junto ao lago, resulta num amor que ninguém poderá quebrar.





Essa história pertence a 1000faces, grande escritor e jornalista do Reino de Portugal, e foi escrita de "uma recolha de Mil Faces baseada nas lendas de Leiria, contadas pelos habitantes. Foi inspirada pelas conversas com os locais, principalmente as Damas Vst e Sbcruglio, e é uma homenagem à cidade de Leiria. - texto retirado do forum do RPG Reinos da Renascença"

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Feliz Aniversário!

Eu já fiz presentes de aniversário pra tanta gente aqui mas me encontro com um dilema. O que escrever no dia do MEU! :)
Ano passado escrevi sobre ter 33 anos... Mas não quero falar sobre os 34! Não... Não é que eu esteja achando ruim fazê-los, não tenho problema com isso, é que eu pensei em falar de como é bom fazer aniversário.
Então comecemos. Fazer aniversário é bom porque a gente tem um dia especial nosso. Pode parecer bobagem, mas tem tantas datas importantes e que são feriado que ter um dia nosso é algo incrível! Todos te ligam, te mandam recados, te compram coisas, te divertem, riem contigo...
Porque aquele dia é teu. É especial... Esse ano resolvi que não faria festa. Simplesmente porque nao estou afim. Mas aconteceram algumas coisas legais: A Leo lembrou do meu aniversário (ah se ela não entra na net lá do amazonas e nao vê os bolinhos no meu msn!!!); Falei com Liginha; Lula Pires me ligou!!! Massa!!! Ganhei flores do meu avô. Bolo surpresa. As gurias (Elisa, Mine e Mírian) me mandaram um livro, claro, liguei pra agradecer (obrigada!).
Também senti o sabor da voz da Li (muito bom)! Muitos recados no orkut. Recados daqueles que, às vezes, são esquecidos aqui... A GEEEEEE, com ela falei pelo msn (to com saudade da tua voz). A Iliana também me ligou! Gente, tenho medo de deixar alguém de fora... Tem a Lari e a Dri... Meus primos, tios.... Teve a carol de madrugada!
Sabe... Obrigada a todos, pois o melhor presente que cada um podia me dar, já deu. Deixam eu estar na vida de vocês como sou.

sábado, 16 de janeiro de 2010

O dia do cão

Hoje acordei com uma vontade de fazer algo diferente. Sabe, daqueles dias que você não sabe bem o que quer mas sabe que precisa fazer algo?
Pois, não estava certa do que queria, então, tomei banho e saí a vagar pelas ruas. Decidi ir ao shopping. Caminhei por entre as lojas por horas, liguei pra uma amiga e ela me encontrou por lá. Fomos ao cinema e depois um lanchinho.
Mas o dia ainda não estava satisfeito. Ainda sentia aquilo. Ao sair do shopping, ainda no finalzinho da tarde, deparei com uma loja dessas de animais. Não resisti. Parei o carro em frente e lá fui eu pra dentro da loja.
Tantos animaizinhos. Num canto estava uma porção de coelhinhos.... Uma coelha havia dado filhotinhos a poucos dias e lá estavam eles com aquela carinho de "porco" embaixa da dona coelha... As aves... O que dizer das aves. Uma mais linda que outra. Devo confessar que fiquei tentada a gastar meu dinheirinho com uma ave branca lindíssima... Tinha também animais exóticos. Um lagarto lindo. Uma cobra enorme e albina (estranho pra ser um animal de estimação, mas sabe como é, existe gosto pra tudo), um macaquinho prego - ah, mas pra tudo tinha licença.
Mas foi quando eu já estava quase saindo da loja que o vi. Alí, com seus olhinhos de piduncho. Um cãozinho. O cão. Meu cão. Não resisti e peguei-o no colo. Comprei tudo que precisava e o levei pra casa.
-- Hey, preciso te dar um nome - disse fazendo festinha quando cheguei em casa.
E, olhando pra estante bem na minha frente estava lá, bem grandes e douradas, as letras formando o nome dele...
-- Hércules!
Ele latiu. Parece que gostou. Assim Hércules mudou da loja de animais para a minha. Onde vive até hoje.
Para Elsa, minha amiga Portuguesa que me deu sua primeira palavra.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Incivilidade

Hoje estava vendo o jornal e começaram as notícias sobre o Haíti. Chegou um momento e disseram que as pessoas estão roubando. E, segundo a reporter, o embaixador do haíti nos Estados Unidos disse que a população está "perdendo a paciencia".
Nessa hora eu lembrei que estava devendo um texto, e esse é um bom momento. O que é "incivilidade"?
Sempre que levo temas como esses aos meus alunos eu costumo perguntar: Quem é que diz o que é o que?
Conceitos sociais são isso, sociais. São valores "impostos" por determinadas sociedades para os indivíduos. Sem esses valores as convivências seriam impossíveis. Afinal, andar na calçada, respeitar os espaços alhieos, "não roubar", palavras como "com licença, por favor, obrigado", ser educado com os mais velhos, dar lugar no ônibus... Nos permitem respeitar os demais pertencentes ao grupo.
Coisas que nos parecem simples, nos fazem falta, mas estão sendo perdidas. Mas aí eu escuto o cara na TV dizer que as pessoas estão começando a saquear, e que o medo começa a tomar conta do lugar e MAIS, que os que tem mais medo são aqueles que tem água e comida em casa... Então chegamos no ponto que eu queria. Onde está a civilidade de alguém faminto, sedento, desesperado pela vida.
Não seriam os valores da "civilização" tentativas de prender o homem da cavernas que somos? O animal cheio de instintos? Quem determina o que é certo e errado? Quem diz a uma criança que ela deve comportar-se assim ou assado?
Ño entanto, não penso que isso seja "ruim". Precisamos de bom convívio, precisamos entender as diferenças, não se pode ser egoísta ao ponto de julgar alguém pelo seu sexo, raça, credo, ou opção sexual... Mas lembrem-se, fui educada em uma familia cristã, e esses são os meus "valores". O que será que eu faria com fome, sede, frio, medo....

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Revendo a história

Ao despertar da noite insone
Acreditou o jovem Píramo
Que a hora era chegada.

Juntou os trapos do sofrimento
E a adaga, ao pé do amoral
E a vida desdichosa decidiu terminar.

Não havia esperaça alguma
Pois seu erro fora fatal
Assim decidido e firme
Começou o golpe final

Mas essa, da história difere,
Pois a tempo sua Tisbe chegou
E com todo amor que lhe confere
A vida de Píramo Salvou!


Aos que nao fazem idéia de que sejam Píramo e Tisbe vejam aqui. Uma versão bem bonitinha da história de Ovídio.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Saudade (de novo)

Estou alí, na varanda, vendo o morro atrás da casa, um livro pendendo no colo... Meus olhos estão perdidos quando escuto alguém ao meu lado:
-- Hey, tá aonde?
Olho, suspiro, sorrio. De repente ele olha para o livro que tenho nas mãos e compreende. Senta-se. Poe a mão em meu ombro e deita minha cabeça em seu colo.
Choro.
Deixo a saudade escorrer pelos meus olhos claros como o dia e tristes... Cada canto daquela casa, cada cheiro, cada detalhe de uma conversa me trás ela de volta ao pensamento. É minha primeira visita depois de tudo...
Ler um trecho do livro e não ter com quem tecer comentários, olhar o cachorro e não poder ouvir: "é um animal muito bonito", escutar o silencio da casa sem uma quebra dele com um chamado...
Descubro inconcientemente que ainda dói. Dói e muito. Essa saudade egoísta e dura que a prende aqui e não nos deixa em paz.
Quando termino de chorar seco minhas lágrimas na blusa dele e o olho nos olhos:
-- ...
Sorrio fracamente e deixo meu obrigada transparecer pelo sorriso.
-- De nada. Também é pra isso que estou aqui.